ACTUALIDADE – 23.º Portugal de Lés-a-Lés. Das serras às planícies, com passagem...

ACTUALIDADE – 23.º Portugal de Lés-a-Lés. Das serras às planícies, com passagem pelo Centro de todos os encantos

Um dia diversificado, com subidas a miradouros e descidas a praias fluviais, com palácios centenários e fortalezas milenares. Assim foi a 2.ª etapa do 23.º Portugal de Lés-a-Lés, com 299 quilómetros na ligação de São Pedro do Sul a Abrantes. Transição da rude paisagem serrana a norte para as douradas planícies alentejanas, deixando para trás bosques e carvalhais e penetrando no reino do eucaliptal. Retomada a aventura onde havia ficado na véspera, saiu a caravana da Capital do Termalismo fazendo a devida vénia à passagem pelo nobre Palácio do Marquês de Reriz, onde a Rainha D. Amélia e o Rei D. Carlos I mais os Príncipes Reais, Luís Filipe de Bragança, Maria Ana de Bragança e Manuel II de Portugal, pernoitavam quando vinham a banhos, em finais do século XIX. A arquitetura barroca deste palácio de longa fachada e linhas sóbrias passou quase despercebida ao rapidíssimo grupo das cinquentinhas de Benavente e St.º Estevão. É que as Famel XF-17, Sachs V5, Sachs Fuego e Sachs Motozax de Telmo Costa, Carlos Cachulo, Tiago Francisco e Vítor Ferreira passaram por ali ainda a noite estava, parcimoniosamente, a ceder o seu lugar ao dia. Dealbar de uma etapa que haveria de prosseguir por Viseu, com tempo para espreitar a imponência dos muros de terra batida da cava do Viriato ou a majestosidade da Sé Catedral, paragem em estreia absoluta na aventura organizada pela Federação de Motociclismo de Portugal. E que, desde logo, deixou em muitos participantes a vontade de voltar, quanto mais não fosse para descobrir essa fortaleza com 2 quilómetros de taludes em terra batida, rodeados de um fosso defensivo, com uma forma de octógono perfeito – dos quais seis lados continuam em condições de ser visitados – e que terá sido criado como acampamento militar na época romana, nos Séculos II ou I A.C. Deixando para trás as muitas rotundas viseenses, passagem dos carvalhais para o reino do eucalipto, entre Tondela e Vila de Rei, onde as divertidas curvas da N2 ajudam a disfarçar tão desinteressante paisagem, minimizada pelo bem tratado centro de Santa Comba Dão. Onde o grande ajuntamento de motos levou grande parte da caravana a seguir o conselho para degustar o reforço alimentar ali oferecido, mais adiante, na Barragem da Aguieira, a comemorar os 40 anos de entrada ao serviço. Obra imponente inserida numa localização privilegiada, com cerca de 90 metros de altura, retendo as águas do Mondego para criar uma albufeira que se estende por mais de 2000 hectares abrangendo os concelhos de Carregal do Sal, Mortágua, Penacova, Santa Comba Dão, Tábua e Tondela. E se, inicialmente, a água aqui travada de destinava essencialmente ao abastecimento das populações, à irrigação agrícola, à regulação do próprio caudal do rio e, claro, também à produção de energia elétrica, hoje oferece ainda condições de eleição para as mais diversas atividades aquáticas, de lazer ou desporto.

Da grandeza do Mondego ao paraíso do Alva – Dimensão imponente do maior rio de curso inteiramente em Portugal em contraste absoluto com o pequeno e bucólico paraíso encontrado na praia fluvial do Vimieiro, nas margens do rio Alva que, nascido na Serra da Estrela, atravessa paraísos como a carismática Ponte das Três Entradas ou as belíssimas aldeias de xisto, antes de desaguar no Mondego. Ali, num cenário ímpar, tempo para uma água (de Penacova, pois claro) e um delicioso pastel de Lorvão, doce conventual à base de amêndoa e ovos, nascido pelas mãos das freiras do Mosteiro de Santa Maria de Lorvão, e que deliciou os 2500 participantes neste 23.º Portugal de Lés-a-Lés como outrora conquistou o General Wellington que por aqui andou aquando da sua defesa dos interesses portugueses na Guerra Peninsular. Seguindo ao longo do Mondego, tempo para apreciar a monumental Livraria do Mondego, obra que foi esculpida pela natureza desde há mais 400 milhões de anos, cientificamente falando assentadas de quartzíticos do Ordovícico dispostos quase verticalmente, como se de livros numa estante se tratasse. Sem tempo ou vontade para grandes leituras, seguiu a caravana rio abaixo, rumo a Vila Nova de Poiares e passagem pelo alto da Sr.ª da Candosa antes da paragem em Góis. Claro que era impensável passar por terra tão acolhedora, simpática vila com mais de 800 anos de história, sem visitar a sede o Moto Clube de Góis e o relaxante Parque do Cerejal. Onde, aproveitando a frescura do rio Ceira, se podia piquenicar (e que deliciosas estavam as Gamelinhas de Góis, com equilibrada mescla de paladares entre o mel, castanha, noz e canela!) ao mesmo que era possível descobrir as novidades da coleção 2021 dos capacetes NEXX. Para aqueles que não estavam ainda com apetite suficiente, surgia a possibilidade de paragem mais adiante, nas praias fluviais em Tulhas da Cabreira, no Colmeal ou em Alvares, onde às águas cristalinas se juntam a uma paisagem única e a curiosidades arquitetónicas como lagares de azeite, moinhos de água, pontes seculares (caso da do Soito, onde outrora passava a N2) ou as tulhas, pequenas construções em xisto, onde antigamente se guardavam as azeitonas.

Rumo ao Tejo… mas sem o atravessar – Seguia assim, rumo a sul, o internacional pelotão, onde os motociclistas portugueses eram acompanhados por matrículas de todo o Mundo, da vizinha Espanha às mais afastadas ilhas britânicas, mas também do Luxemburgo, França, Suíça, Alemanha ou Itália. Além de amigos de Cuba, Brasil ou Angola numa das mais internacionais caravanas de sempre, deleitada com paisagens como as oferecidas no miradouro da Sr.ª dos Milagres, por onde passava a N2 antes de descer pelos ganchos em calçada escorregadia até à Ponte Filipina. Ancestral travessia do Zêzere – inesquecível para os participantes do 18.º Lés-a-Lés! – antes da construção da Barragem do Cabril, iniciada em 1950, agora utilizada na viagem com a Sertã como destino. Nome nascido de uma lenda com toques gastronómicos já que tal se deveria ao utensílio que a jovem princesa Celinda defendeu o castelo do assalto das tropas romanas, primeiro com o azeite que fervia para cozinhas os ovos e depois com a própria sertã quase brasa. Estória que parece ter aberto o apetite para o lanche desfrutado nas margens da Ribeira da Sertã, com direito a travessia da ponte da Carvalha, construída no Séc. XVII em plena Dinastia Filipina. Com o tempo a aquecer, a passagem por Vila de Rei e a obrigatória subida ao Centro Geodésico de Portugal, marco inesquecível das duas primeiras edições do Portugal de Lés-a-Lés que por aqui passaram à meia-noite, exatamente a meio das 24 horas gastas na ligação entre os dois extremos do mapa Continental. Um ponto determinado há mais de dois séculos (em 1802), com equipamentos escassos e de precisão infinitamente menor que atualmente mas que, só muito recentemente, levantou alguma dúvida com um estudo matemático a determinar o centro geométrico do País ligeiramente ao lado, no concelho de Mação. Polémicas à parte sobre o umbigo de Portugal, a verdade é que no alto do Picoto da Milriça, mesmo ao lado do Museu da Geodesia, está a coordenada zero em termos cartográficos, sendo a partir daquele ponto que são feitas as medições da cartografia nacional. Está, pois, localizado no concelho de Vila de Rei, o mesmo que ofereceu não só um apetitoso lanche como locais espetaculares para o degustar. Da aldeia de xisto de Água Formosa, aos miradouros das Fragas do Rabadão, com vistas sobre o Zêzere, ou no miradouro e praia do Penedo Furado, verdadeiros ex-libris do concelho. Já com o dia longo, teve a caravana direito a brinde especial à passagem do Sardoal, com inesquecível festa da população à passagem da heterogénea e colorida caravana, com indicações em todas as viragens dentro da pequena e lindíssima povoação. Ficaram assim os motociclistas mais à vontade para retribuir aos acenos e aplausos da população, com destaque para as muitas crianças que, em alegre algazarra, acolhiam os aventureiros da maior maratona mototurística da Europa. Uma última paragem para a fotografia no oásis com vista so montados, antes do final em Abrantes, na margem direita (ou norte..) do Tejo, preparando a mudança na paisagem e na viagem, guardada para a última tirada deste 23.º Portugal de Lés, com destino a Faro.